sábado, 19 de julho de 2008

Listras pretas e brancas

Seria a zebra, branca com listras pretas ou preta com listras brancas? No livro Tabuleiro de Damas, Fernando Sabino faz uma pergunta parecida, se o tabuleiro de damas é preto com quadrados brancos ou branco com quadrados pretos. Mas ele acha que o tabuleiro é nada com quadrados brancos e pretos. Acho que podemos dizer o mesmo da zebra, nada com listras pretas e brancas.

São tantas perguntinhas assim bobas, que nos fazem parar para pensar horas. Quem veio primeiro o ovo ou a galinha? Acho que se formos relevar a Bíblia, Deus criou todos os animais em Gênesis então podemos afirmar que a galinha veio primeiro e sucessivamente os vários ovos. Indo para um lado mais filosófico da coisa podemos falar outra pergunta: “ser ou não ser, eis a questão”.

E é isso, traçando um paralelo nessas perguntas bobas até chegar nos finalmentes. Na vida somos cheios de dúvidas e perguntas e às vezes nos deparamos com algumas do tipo: quem eu sou? Quem você é? Que também nos deixa na maior dúvida. Não é tão engraçado nos fazer tal pergunta e ficarmos horas assim: “bom, eu sou... um cara legal, é...”, e daí dura uma eternidade até a pessoa conseguir descrever a si mesmo.

Um dia desses estava lendo um livro da filósofa Marcia Tiburi e ela escreveu o seguinte: “Se ninguém conhece a si mesmo, pois esse é o nosso maior problema, oportuno é procurar o próprio nada que nos faz desistir de toda explicação.”* E pegando outra frase para concluir meu raciocínio, escrevo um pedaço de uma poesia de Paulo Leminski: “...nele tudo se foi e , se ser foi tudo, já nem tudo nem sei, se vai saber a primavera ou se um dia saberei, que nem eu saber nem ser nem era.”**

Bom, eu acho que realmente é muito difícil tentar nos entender, porque somos humanos e estamos o tempo todo “aprimorando”, modificando, somos uma verdadeira metamorfose. E essa é a graça de viver, estar constantemente aprendendo, melhorando, para no final sermos alguma coisa.

Seguindo o raciocínio da filósofa, é realmente oportuno procurar o nada porque aí sim nós nos entenderemos, porque como diz Leminski “que nem eu saber nem ser nem era”. Ainda não somos, alias somos nada e no final da vida, quando tudo já aconteceu, aí sim podemos “ver” que fomos alguma coisa, enquanto isso não somos nada.

Tais perguntas nos deixam horas pensando, analisando, vira um quebra-cabeça onde tentamos juntar todas as peças para ver no que vai dar. E nós somos um grande quebra-cabeça, onde só no final podemos ver no que deu, olha que fantástico. Por enquanto somos meras peças, que “alguém” está montando.

Por isso não precisamos nos dar ao trabalho de ficar horas e horas tentando nos decifrar. Acho que nós, seres humanos, somos muito insatisfeitos. Não contentamos com nada e queremos questionar literalmente Deus e o mundo. Não é muito mais fácil viver, só viver. Sei que realmente é muito gostoso ficar pensando, questionando, fazemos tudo isso para tentarmos mostrar que não somos tão burros quanto parece, mas há coisas que não são necessárias.

Mas não recrimino ninguém, escrevo esta crônica para tentar dar um de entendido, falando como podemos viver uma vida mais “tranqüila”. Mas eu mesmo fico horas e horas a questionar as coisas, só para me dizer inteligente.

É uma controvérsia, um equívoco, e quem não é cheio dos equívocos? Alias somos humanos. Nós humanos somos assim, tem até a frase: “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”. E é bem assim mesmo.

Bom, pelo menos desse equívoco, dessa controvérsia, nasceu uma crônica. Vivemos a vida a questionar, desde perguntas bobas, só para descontrair uma roda de amigos como quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Até perguntas mais “sérias” como quem eu sou? Enfim, vivemos num mundo de insatisfeitos, onde todos procuram achar defeitos e questionar a Natureza para se dizer mais inteligente, e como diz Fernando Pessoa: “O Mundo não se fez para pensarmos nele... Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...”***.

Notas:

* Livro Magnólia da Marcia Tiburi;

** Livro Distraídos Venceremos de Paulo Leminski;

***Fernando Pessoa em Poemas completos de Alberto Caeiro

27/08/2006

Um comentário:

.hugo rocha. disse...

Olho para o mundo e estou de acordo.
Olho novamente e já não estou...
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Contradição!
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Muito bom o texto, rapaz.
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:)